Abrindo a janela antártica
por João Paulo Barbosa (joaofotobrasil@gmail.com)
“Ele nunca vira aquelas imensas, brancas e brilhantes extensões de gelo e neve. Desejava ter sido cientista, em vez de pintor de paredes em Água Mansa, e então poderia ter participado de algumas das grandes expedições polares. Como nunca pôde fazer isso, continuamente pensava nelas”. Richard e Florence Atwater, em Os Pinguins do Sr. Popper (Editora Intrínseca) >>>
A Antártica é uma espécie de meca moderna. Não exatamente uma meca religiosa, mas um ponto de convergência para cientistas e viajantes polares.
Antes de ser tocado fisicamente pelo vento congelante que reina na Antártica mesmo no verão, sonhava, inspirado, com as histórias e fotografias dos livros da minha estante. Lia e relia, palavras e imagens, em busca de um primeiro contato.
Tentava decorar passagens e trechos clássicos dos livros mais famosos, na vã expectativa de me aproximar do continente ou até mesmo comparar com algum possível sentimento meu, caso viesse a estar um dia em altas latitudes austrais.
Olhava repetidamente centenas de fotografias. Dos heróicos fotógrafos Herbert Ponting e Frank Hurley aos recentes artistas da era digital. Examinava detalhes em paisagens e mergulhava minha íris em pacientes horas de admiração, fossem em texturas de neve e gelo, ou em expressões sinceras de animais que só vivem “lá para baixo”.
Existe um mito. Existem muitos mitos antárticos. Imagens e imaginário que se fundem e se confundem em torno de quase dois séculos ou quem sabe, dois milênios. Dos geógrafos gregos antigos Estrabão e Ptolomeu até exploradores polares contemporâneos, como Amyr Klink e Börge Ousland, a capacidade do homem de criar e recriar mitos antárticos permeou a ciência e, mais tarde, a arte e a literatura. O homem criou seres e cenas que, apesar de inverossímeis, são fantasticamente encantadores.
Já se falou, se escreveu e se fotografou bastante sobre o continente do gelo, dos superlativos, do futuro. Coisas muito boas e outras muito ruins aconteceram ou foram descritas desde as viagens do capitão James Cook, na segunda metade do século XVIII, até o ano polar 2007-2008. Entretanto, ao menos comigo foi assim, a sensação de um lugar renascendo ao primeiro encontro é marcante, como uma flor que nunca brota igual.
A Antártica, para o ser de espírito aberto, é sempre única, intensa e dinâmica. É uma mistura perfeita de primitivo-selvagem-intocado-inóspito espalhada num caleidoscópio de miragens observadas por olhos surpreendidos e agraciados. Não é apenas uma “igreja”, um templo, um lugar sagrado, é tudo o que um não devoto merecia para abraçar sua espiritualidade.
Talvez cem viagens a esse imenso continente seja pouco para compreendê-lo. Talvez a primeira grande viagem a ser feita lá seja para dentro de si mesmo. Durante uma semana,a última do mês de março, convivi com seres antárticos pela primeira vez e não me lembro, nesse ínfimo espaço de tempo, de ter visto um rosto sem satisfação ou um olhar que não brilhasse. A Antártica mexe. Nela mesma e em praticamente todos os seus visitantes.
Antes de Cristo imaginava-se uma porção de terra ao sul do mundo (a terra australis incógnita) que contrabalanceasse a porção de gelo ao norte. A teoria da deriva continental ainda estava muito distante, mas a imaginação criativa de gregos filósofos-sonhadores acertou na mosca.
É sobre a Antártica, o continente gelado, austral, polar, branco, o sexto, o sétimo, o último continente que escreverei regularmente nesta nova coluna do site Aventure-se, do portal iG. Em dezembro publicaremos aqui um especial sobre os 100 anos do capítulo mais marcante da história da Antártica, a corrida e a chegada ao polo Sul geográfico. Enquanto isso, leia, comente, escreva, sugira. A coluna Janela Antártica é para o leitor, amante de aventuras e viajante dos sete mares! Bem vindos!
Próximo texto: "Pisando na Ilha do Rei Jorge".
O foto-jornalista e historiador João Paulo Barbosa viajou à Antártica com o apoio do PROANTAR (Programa Antártico Brasileiro), através da CCSM (Centro de Comunicação Social da Marinha) e do Gabinete do Senador Rodrigo Rollemberg). Acesse https://www.mar.mil.br/secirm/ e explore mais sobre a presença do Brasil na Antártica. Atualmente trabalha na redação do livro "A incrível viagem do Tio Max à Antártica", junto ao Senhor Comandante Sérgio Ricardo Segóvia Barbosa (Comandante do navio polar brasileiro Almirante Maximiano durante as Operações Antárticas XVIII e XIX), a ser lançado em junho de 2012.



