O cerrado invadiu a Patagônia

por Jaque Pedreira (jaque@criativas.com.br)

 >>>Terminou ontem, 14/12, no Rio de Janeiro, a 11a. Mostra Internacional de Filmes de Montanha, evento que já se tornou um clássico aguardado no calendário de quem curte as atividades ao ar livre.

Quanta Patagônia“, dirigido por Guilherme Pahl, Luciana Melo e Marcio Cesar, levou o prêmio de Melhor Filme do Júri Oficial, formado pelo fera Eliseu Frechou, Lúcia Duarte e Roberta Sauerbronn.

Mais do que o relato de dois escaladores do cerrado brasileiro na gelada Patagônia argentina, com lindas paredes, passagens e paisagens, o filme é uma delícia, uma produção muito autêntica, que explora o carisma incrível de Gui Pahl, esse ai da foto, velho conhecido de quem acompanha os circuitos de corrida de aventura. “Quanta Patagônia” quer dizer isso mesmo: quanta Patagônia! Nem tente fazer qualquer paralelo com quantum, ou outra viagem filosófica desse tipo. É simples assim… MUITA Patagônia…  Como os imensos sorrisos da platéia privilegiada que assistiu no Odeon. Prêmio mais do que merecido!

O prêmio de Melhor Fotografia ficou com ”A Terra da Lua Partida”, Marcos Negrão e André Rangel, um belo documentário sobre os últimos nômades do Himalaia. Lindo. Walfried Amaral Weissmann foi eleito melhor diretor com “Montanha Serra Verde Mato”, e “Tepui”, sobre a escalada de uma via de 1.000 metros ao lado da Salto Angel, Venezuela, foi o escolhido pelo público como o melhor filme do festival.

Red Bull Psicobloc, de Andre Duck e Wiland Pinsdorf, que contava com uma mega produção da própria Red Bull Media House, acabou levando o prêmio de melhor montagem.

O que se viu na Mostra Competitiva deste ano foi uma incrível melhora na qualidade técnica das produções. Parabéns ao Alexandre Diniz, diretor da mostra, por esse incentivo. Porém, o que ficou não só pela experiência ali, no momento da exibição, mas também no final, pelo resultado, foi que abusar da autenticidade, usar a criatividade e o carisma como o melhor recurso para a falta de recurso, é, foi e sempre será a melhor tática.

Quanto a Mostra Banff… é sempre um privilégio poder assistir aos filmes selecionados pelo Festival. Em uma palavra: Intenso. Skatistas testando os limites num chic-style na Sierra Nevada, Califórnia, caiaquistas insanos dropando quedas dágua inacreditáveis, escaladores num big wall no fundo ao ártico, uma alemã-voadora que sobrevive a uma tempestade furiosa que a suga para quase 10 mil metros de altitude… highlander é pouco pra ela, e quase pra quem assistiu. :-)

Mais relax, um ex-viajante vagabundo, agora, um viajante quase domesticado, que em 3 minutos mostra que ainda está vivendo seu sonho a cada dia, seguido por um filme em Ultra HD com alguma das imagens mais incríveis de pedalada que vi na vida, e  Christopher Rehage,  com seu clássico “The Longest Way”, os 5 minutos mais premiados que se tem notícia, que mostra o tempo de uma viagem a partir da perspectiva do crescimento da barba do protagonista.

No final, chave de ouro, o que eu, particularmente mais esperei ver no Festival: Ueli Steck, a “máquina suíça”, como é chamado. Considerado o alpinista mais veloz do mundo, ele vive correndo. Muito. Sempre. Nos bosques, na neve, nos alpes, na altitude, em cristas incríveis. E escala rocha também. Então, por conta disso tudo, resolveu marcar um encontro com outra máquina, Alex Honnold, aquele que desafia as big wall sem qualquer equipamento de segurança (confira um pouco sobre ele aqui), o que consequentemente lhe confere uma velocidade incomparável na ascenção.

Os dois foram para o Yosemite, escalar a via The Nose, uma das mais clássica do El Captain. Em geral, ela é feita em 4, 3 dias, para os escaladores mais experientes. Os dois fizeram em 4h45m. E vão precisar repetir o encontro porque não bateram o recorde, que é de 2h37m5s. Outra história… :-)

Da parede de rocha da Califórnia para o Eiger, montanha de 3.970 metros de altitude, nos Alpes Berneses, Suíça. Outra tentativa de recorde. Outra escalada com o relógio pendurado na cadeirinha. Enquanto a maior parte dos seres humanos que encaram a face norte do Eiger precisam de 4 dias pra conquistá-la, Reinhold Messner precisou de 10 horas, Ueli subiu em 2h47m.

Se ficar subindo montanha atrás de recordes é bacana ou não, não é o que se discute aqui. Assim como não se discute se é loucura querer escalar sem segurança, dropar quedas insanas de águas turbulentas, surfar estradas de asfalto em cima de pranchas de skate, ficar semanas pendurado numa parede de rocha, enfrentar o frio, o calor, a fome, a exaustão, no extremo sul, no extremo norte, na floresta tropical… Cada um faz o que quer da vida e, desde que não falte com respeito a tudo que o cerca, tudo isso são simplesmente formas lindas de expressão. Nada mais do que isso. Simples, assim como o vencedor do festival.

Faltou fôlego pra quem estava sentado nas cadeiras do cinema. Aliás, absolutamente lotado, sucesso total.

Se você não foi, confira um trailer do Steck, e não deixe de conferir o Festival do Rio, ao vivo e a cores, no próximo ano. Perder o fôlego “em descanso” é sempre muito bom! :-)

Ueli Steck – The Swiss Machine

 

Jaque Pedreira (jaque@criativas.com.br) é carioca, invadiu uma vez o cerrado e é repetitiva quando o assunto é “Patagônia”. Já se perdeu nas estradas de Sierra Nevada, de carro, nas trilhas do Yosemite, a pé, e tem muita curiosidade sobre como é viver 17 dias pendurada numa big wall…

 

>>>  Leia mais sobre o Festival:

 O melhor filme: Quanta Patagônia

 

 

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