Estreito de Bering
por Jaque Pedreira (jaque@criativas.com.br)
No século XVIII, quando a Enciclopédia Britânica já lançava suas primeiras edições, pouco se conhecia dos limites continentais. O que se sabia era que grandes porções de terra eram separadas por mar, mas onde ficavam as fronteiras entre água e terra… ninguém sabia>>>
A História da humanidade está repleta de expedições e pessoas visionárias que dedicaram suas vidas na busca do traçado das costas marítimas. Se hoje, através de um mapa, podemos saber com exatidão onde começam e terminam continentes, países, cidades, há centenas de anos, quando mal se tinha certeza se o Japão era uma ilha ou parte do continente asiático, navegar mares a dentro era a única maneira de conseguir entender melhor como se desenhava o planeta.
Conhecer a história de Vitus Bering é entrar em sintonia com os limites e desafios que o ser humano é capaz de superar, pelo simples prazer de desbravar o desconhecido.
O explorador
Jonassen Vitus Bering nasceu na cidade de Horsens, Dinamarca, em 1681, e desde muito cedo já se aventurava nos mares gelados do norte da Europa. Em 1703, em Amsterdam, se alistou na recém formada marinha Russa e logo chamou a atenção do Czar Peter, “O Grande”, um dos líderes russos mais atuantes na tentativa de mapear e coletar informações sobre a região leste do continente asiático, na época uma área totalmente desconhecida.
Em 1724 Bering foi convidado para liderar uma grande expedição que teria como objetivo, explorar a área marítima entre a Sibéria e o Alasca e descobrir como e onde a Ásia e, o que hoje conhecemos como América, eram conectados.
Pode parecer incrível, mas as suposições de que os dois continentes eram ligados através de algum pedaço de terra, não era totalmente absurda para os conhecimentos da época…
Há milhares de anos, várias porções do planeta eram cobertas de grossas camadas de gelo e desafiadoras geleiras: a Era Glacial. Com a maior parte da água congelada, o nível do mar baixou cerca de 90 metros e como resultado, alguns continentes que anteriormente estavam separados, acabaram se juntando através de pequenas “pontes” de terra. Por uma destas ligações, caçadores nômades russos atravessavam o estreito entre Rússia e o atual estado americano do Alasca, em busca de sobrevivência.
Hoje sabemos que com o fim da Era Glacial, as geleiras derreteram, o nível do mar subiu e a passagem foi coberta pelas águas. Mas… alguém precisou ir até lá e fazer esta constatação.
Expedição 1: O Estreito de Bering
Antes mesmo de se aventurarem pelos mares mais bravios, Vitus Bering e sua tripulação precisaram vencer um desafio e tanto: Atravessar, a pé, toda a extensão oeste-leste da Ásia. Em 1725, ano em que partiram da cidade de St. Petersburg, extremo ocidental da Ásia, os pés ainda eram o meio de transporte mais eficiente.
Depois de enfrentar corredeiras, geleiras e inúmeros outros desafios da natureza, chegaram à Península de Kamchatka, extremo oriental do continente asiático: Foram gastos 2 longos anos, e a expedição estava só começando…
Mais um ano de trabalho na construção dos navios e finalmente no verão de 1728, Vitus Bering e tripulação partiram a bordo do St. Gabriel… Começava enfim, mais uma das expedições que ficaram para a história.
Velejando para norte, ao longo da costa, descobriu a ilha St Lawrence e logo após encontrou um estreito entre os dois continentes: o legendário Estreito de Bering, como foi depois batizado. O mar era forte, o clima difícil…. Bering passou por maus momentos…
Com as péssimas condições do tempo, Bering não conseguiu avistar o Alasca, apesar de passar a poucos quilômetros da costa.
Sem se dar conta de que o continente americano estava ficando cada vez mais distante, a expedição seguiu em direção ao Oceano Ártico. Quando já havia navegado uma enorme distância rumo norte precisou desistir da busca e retornar, já que o estoque de suprimentos estavam chegando ao fim. Na viagem de volta, fez todo o mapeamento da costa leste e coletou informações dos lugares povoados.
Apesar do grande feito da descoberta do Estreito de Bering e dados importantes para o traçado dos primeiros mapas, Bering não foi muito bem recebido pelos russos… Faltava encontrar os limites do continente… Um pedaço de terra que confirmasse ou não a ligação da Ásia ao que hoje conhecemos como Alasca.
Expedição 2: A conquista do Alasca
De volta a St. Petersburg, Bering não perdeu tempo e logo começou a planejar uma nova expedição a partir de Kamchatka. Alguns grandes investidores se interessaram em patrocinar a viagem, mas em troca atribuíram tarefas tão complexas quanto o montante do investimento: mapear toda a costa Rússia-Sibéria, do Mar Branco, passando pelo Estreito de Bering, até o Japão e toda a costa oeste norte americana, do Estreito de Bering até o México. Tarefa para poucos…
A expedição era tão grandiosa, que nela se juntaram cientistas da Academia Russa de Ciências, que tinham muito interesse em pesquisar a natureza e as pessoas de todas estas regiões.
Os primeiros anos da expedição, que começou em 1733, foram dedicados ao norte da Sibéria. Apenas em 1740, Bering chegou a Kamchatka e como passavam por um inverno cruel, resolveram esperar mais alguns meses na cidade Petropavlovsk para, finalmente, partir na direção do Alasca.
No verão, a bordo do St. Peter, a expedição voltou ao mar rumo norte pelo, agora chamado, Mar de Bering. Um ano após a partida, Bering avistou o Alasca, que naquele instante se tornava território russo. Como todo planejamento para as viagens acabavam sempre sendo sub-dimensionado, devido ao desconhecimento das regiões onde teriam que navegar, mais uma vez os víveres começaram a ficar escassos e a tripulação precisou apressar a volta para casa.
A viagem foi muito difícil… Temperaturas dezenas de graus negativos, mar agitado e extremamente traiçoeiro… Até que em 5 de novembro de 1741, visualizaram uma costa e naquela altura não conseguiram distinguir se poderia ou não ser o ponto final da expedição, Kamchatka. Precisaram arriscar…
Após horas e inúmeras tentativas, conseguiram aportar. Mas, ao invés da velha e conhecida península, estavam em uma ilha totalmente isolada e inabitada, as Ilhas Commander, na região sudoeste do Mar de Bering.
Só para se ter uma idéia do cenário que a expedição enfrentou, o Mar de Bering é considerado como um dos mais difíceis para navegação. As tempestades de inverno, com temperaturas na casa dos –35º a –45º e ventos fortíssimos, são freqüentes e muito severas, geralmente prendendo os navios no gelo. As ondas chegam a 12 metros de altura.
Para completar, o mar recebe uma corrente fria do Ártico e uma mais quente vinda do Pacífico. Com o encontro das duas a região fica totalmente as cegas devido ao forte fog. Os gelos que flutuam por todos os lados são um perigo adicional para os poucos que se aventuram por ali.
O legado
Completamente danificado, não precisou muito tempo para que o St. Peter afundasse nas águas geladas do Mar de Bering. Sofrendo com o frio e a falta de alimento, Bering também não resistiu e acabou perecendo em 8 de dezembro de 1741. Barco e capitão acabavam de deixar seus nomes para sempre na história…
Dos 78 tripulantes que partiram de Kamchatka no ano anterior, 46 sobreviveram. Aguardaram paciente e corajosamente o fim do terrível inverno e na primavera seguinte construíram um pequeno barco com o que havia sobrado do St. Peter. Em agosto de 1742, quase um ano após o naufrágio na ilha, conseguiram chegar à Península de Kamchatka.
Apesar do trágico desfecho, as duas expedições de Vitus Bering trouxeram enormes benefícios para a Rússia e, principalmente para o mundo. A Rússia conquistou o território do Alasca (que em 1867 foi vendido para os Estados Unidos) e a primazia de várias rotas polares. A comunidade científica conseguiu realizar várias descobertas importantes a partir de anotações dos cientistas que participaram da expedição, e o mundo obteve enormes progressos através dos mapas gerados a partir de informações e observações do navegador.



