O melhor filme: Quanta Patagônia

por João Paulo Barbosa (joaofotobrasil@gmail.com)

O vencedor do Prêmio de Melhor Filme do Júri Oficial da 11a. Mostra Internacional de Filmes de Montanha, realizado mais uma vez no Cine Odeon do Rio de Janeiro, é único. >>>

Dois emergentes escaladores de Brasília, Guilherme Pahl e Marcio Cesar, viajaram para a Patagônia e encontraram um amigo escalador, Luiz Coslope. Até aí nada de diferente. O que encanta e inspira o espectador é a sinceridade e a despretensão com que escalam vias clássicas entre Bariloche e El Chaltén, na Patagônia argentina. Percebe-se, ao longo dos 23 minutos do filme, dirigido em parceria com a realizadora Luciana Melo, o respeito e a humildade no ato de verticalmente viver patagônico: aceitar as mudanças climáticas com muito bom humor; esperar sem pressa por uma janela de bom tempo; conviver em harmonia com os elementos da natureza selvagem e, ao final de cada dia, comemorar novas escaladas com os parceiros de cordada.

Guilherme Pahl e Marcio Cesar realizaram um sonho-projeto em comum. Escapar da horizontalidade do Planalto Central do Brasil e ganhar mais experiência de escalada nas montanhas ao sul da América. Respirar as paisagens ao redor dos montes Tronador, Fitz Roy e Cerro Torre é um grande privilégio. Estar preparado física e mentalmente para continuar uma tradição brasileira nas agulhas patagônicas é para poucos. Gui e Marcio estão na mesma linhagem de escaladores brasileiros do porte de Alexandre Portela, Sérgio Tartari, Makoto Ishibe, Roberta Nunes, Bernardo Collares e Ralf Côrtes, dentre outros. A dupla registra o que vê, o que fala, o que escala e, ao final, compartilha com quem não esteve lá o sentimento e o gosto da realização.

Gui Pahl é um caso raro no esporte e na história da aventura do Brasil. Exímio navegador e campeão de corridas de aventura, tem um perfil claro de atleta olímpico. É perfeccionista e talentoso no que se propõe a fazer. Sua personalidade é similar à de um explorador irreverente e competente. E, de quebra, é um ótimo contador de estórias. Tanto daquelas mostradas no filme Quanta Patagônia, quanto das que lê em livros. Esse parênteses é para reforçar o fato de haver uma naturalidade na sua alegria em contar espontaneamente aventuras que se refletem também no filme. A consciência de que cada momento naquela terra mágica é um pedaço de história inesquecível.

Seu parceiro habitual de escaladas é um contraponto interessante. Marcio é, como Gui, um escalador forte, determinado e maduro. Porém, mais quieto, comedido e de poucas palavras. Uma cordada que já provou que funciona. E que brilha independente dos holofotes. Seja nas pedras do Sertão Zen, na Chapada dos Veadeiros, seja no vale do Cerro Torre, em El Chatén.

A diversidade de imagens extasiantes e depoimentos inteligentes surpreende. O “quanta” nunca é demasiado, excessivo ou supérfluo. O “quanta” é um processo de vida e de escalada, ora onírico ora filosófico. Um filme excelente, por tudo o que é, que merecidamente ganhou o prêmio máximo do cinema de montanha no Brasil.

Que o filme seja inscrito em outros festivais mundo afora e que a dupla encontre Quantos Himalaias, Alpes e Andes houver em seu caminho.

João Paulo Barbosa mora no cerrado, é fotógrafo, montanhista e historiador. Fez a cobertura do 30th Banff Mountain Film Festival (2005, Canadá), a exposição fotográfica da 6a. Mostra Internacional de Filmes de Montanha (2006, Rio) e a apresentação do filme “Tupungato – acima dos seis mil” na 10a. Mostra Internacional de Filmes de Montanha (2010, Rio). Recebeu o Prêmio Special Mention no 2010 Banff Mountain Photo Competition (Canadá).

 

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